Uma pessoa pode estudar durante 15 ou 20 anos, obter uma licenciatura, construir uma carreira e receber um bom salário. Ainda assim, pode chegar ao fim do mês sem saber exactamente para onde foi o dinheiro.Parece contraditório. Não é.
Durante grande parte da nossa formação, aprendemos a resolver equações, interpretar textos, memorizar conceitos e dominar competências profissionais. Mas poucas vezes somos ensinados, de forma estruturada, a elaborar um orçamento, calcular juros, comparar créditos, constituir uma reserva de emergência, investir ou preparar financeiramente a reforma.
Criámos, assim, uma sociedade onde qualificação académica e competência financeira podem caminhar separadamente, e isso produz um paradoxo perigoso, pessoas altamente qualificadas podem tomar decisões financeiras débeis. Um salário elevado não corrige automaticamente maus hábitos, quando o rendimento aumenta sem que aumente a capacidade de gestão, frequentemente cresce também o padrão de consumo, casa mais cara, carro melhor, mais compromissos e novas prestações.
O salário sobe, mas a margem financeira continua pequena é por isso que rendimento não é património.
Imagine dois trabalhadores que recebem 500 mil Kz mensais, o primeiro consome 480 mil e guarda 20 mil. O segundo vive com 400 mil, constitui uma reserva, investe parte do excedente e evita dívidas de consumo desnecessárias. Ao fim de alguns anos, rendimentos semelhantes podem produzir realidades financeiras completamente diferentes.
A diferença não esteve necessariamente no salário. Esteve nas decisões, existe ainda outra questão, gerir dinheiro não é apenas saber fazer contas é saber adiar consumo, distinguir desejo de necessidade, compreender risco, negociar, planear, controlar impulsos e pensar no longo prazo. Ou seja, literacia financeira exige conhecimento, mas também comportamento.
Em Angola, este debate ganha especial importância, segundo informação oficial associada à Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2027, apenas um em cada quatro cidadãos apresenta um bom nível de literacia financeira. Isso ajuda a perceber por que aumentar o acesso a contas, cartões, crédito e aplicações financeiras não é suficiente.Um consumidor financeiramente pouco preparado, quando recebe mais produtos financeiros, pode não receber mais oportunidades. Pode receber mais oportunidades de errar.
Por isso, educação financeira não deveria começar quando alguém pede o primeiro empréstimo, deveria começar antes do primeiro salário. A escola pode ensinar juros simples e compostos através de situações reais. As universidades podem preparar os jovens para interpretar contratos, impostos e investimentos. As empresas podem incorporar educação financeira nos seus programas de bem-estar. Bancos e fintechs podem transformar informação financeira em linguagem compreensível.
Precisamos ensinar uma sequência simples. ganhar, organizar, poupar, proteger e investir. Financiar com responsabilidade, talvez o verdadeiro sinal de educação financeira não seja saber explicar o que é dinheiro é saber o que fazer quando o dinheiro chega. Porque um diploma pode aumentar a nossa capacidade de gerar rendimento, mas é a inteligência financeira que ajuda a transformar rendimento em segurança, liberdade e património.
Kwanza 360 | Educação, Inclusão e Cidadania Financeira