Há algo estranho na forma como preparamos os jovens para a vida adulta.
Durante anos ensinamos matemática, história, línguas, física e outras disciplinas fundamentais. Preparamo-los para exames, universidades e profissões. Mas muitos chegam ao primeiro salário sem saber responder a perguntas elementares, quanto posso gastar? quanto devo poupar? quanto custa realmente um crédito? como começo a construir património? o problema não aparece no primeiro salário, apenas se torna visível nele.
Quando o dinheiro chega antes do conhecimento financeiro, o rendimento pode rapidamente transformar-se em consumo. Depois surgem o cartão, o crédito, as prestações e compromissos que reduzem a margem financeira antes de existir uma verdadeira estratégia para o futuro.É por isso que a educação financeira deveria começar antes do primeiro salário e, sobretudo, antes da primeira dívida.
Um jovem que compreende juros antes de pedir crédito olha para uma prestação de maneira diferente. Quem aprende orçamento antes de receber salário percebe que rendimento não é dinheiro totalmente disponível. Quem compreende inflação entende por que guardar dinheiro não é necessariamente o mesmo que preservar poder de compra. E quem aprende cedo a diferença entre consumo e património começa a olhar para o futuro com outra lógica.
A mudança necessária é profunda, não devemos ensinar apenas como ganhar dinheiro, precisamos ensinar o ciclo completo do dinheiro, ganhar, organizar e poupar, proteger, investir e financiar com responsabilidade.
Em Angola, esta discussão é especialmente relevante, o país está a expandir contas, pagamentos digitais e outros serviços financeiros. Mas existe um risco silencioso, a oferta financeira pode crescer mais depressa do que a capacidade do cidadão para tomar boas decisões financeiras.
E quando isso acontece, inclusão financeira pode significar acesso sem verdadeira autonomia. Por isso, literacia financeira não deveria ser tratada apenas como campanhas ocasionais. Deve aproximar-se da família, da escola, da universidade e do primeiro emprego.
Imagine um jovem que, antes do primeiro salário, já sabe construir um orçamento, criar uma reserva de emergência, interpretar uma taxa de juro, comparar o custo de dois créditos, reconhecer sinais de sobreendividamento e compreender os princípios básicos de investimento.
Esse jovem não recebeu apenas conhecimento sobre dinheiro, recebeu uma vantagem económica para a vida inteira. Precisamos, portanto, de uma nova ambição, antes de entregar ao jovem o primeiro cartão bancário, devemos entregar-lhe conhecimento para decidir. Antes do primeiro crédito, deve compreender dívida. Antes do primeiro investimento, deve compreender risco. E antes do primeiro salário, deve perceber que ganhar dinheiro e construir riqueza são coisas diferentes.
Porque o salário pode ser a primeira grande oportunidade financeira de uma pessoa, mas, sem preparação, pode também inaugurar o primeiro grande ciclo de erros.
A pergunta que Angola deveria fazer não é apenas quanto os nossos jovens vão ganhar? também, estamos a prepará-los para saber o que fazer quando o dinheiro chegar?
O primeiro salário não deveria ser a primeira aula de finanças pessoais, deveria ser o primeiro teste de uma educação financeira que começou muito antes.
Kwanza 360 | Educação, Inclusão e Cidadania Financeira