Durante décadas, entrar no sistema financeiro significava entrar fisicamente num banco. Era preciso encontrar uma agência, preencher formulários, apresentar documentos e, muitas vezes, vencer barreiras geográficas, burocráticas e económicas, o telemóvel está a inverter esta lógica. A pergunta já não é apenas onde está a agência mais próxima? É cada vez mais o que consigo fazer financeiramente a partir do meu telefone?
E essa mudança pode ser particularmente relevante para Angola.
O banco pode deixar de ser um lugar
Um cidadão não precisa necessariamente de compreender toda a arquitectura do sistema bancário para participar na economia formal. Precisa de instrumentos simples para receber, pagar, transferir, poupar e construir um histórico financeiro. É aqui que o telemóvel ganha importância estratégica.
Quando pagamentos digitais, carteiras electrónicas, transferências, aplicações bancárias e outros serviços passam a funcionar num dispositivo que acompanha diariamente o cidadão, o sistema financeiro deixa de depender exclusivamente de uma rede de balcões. O banco deixa de ser apenas um lugar. Passa também a ser uma capacidade disponível no bolso.
Esta transformação altera profundamente a economia da inclusão financeira.
Mas digitalizar pagamentos não basta
Aqui está uma distinção fundamental, uma pessoa conseguir efectuar uma transferência pelo telemóvel não significa necessariamente que esteja financeiramente incluída.A verdadeira inclusão começa quando a utilização produz identidade económica.Imagine um pequeno comerciante que recebe regularmente pagamentos digitais. Essas transacções podem, mediante regras adequadas de consentimento, segurança e protecção do consumidor, ajudar a demonstrar volume de actividade, regularidade de receitas e comportamento financeiro.
Aquilo que antes era quase invisível começa a deixar sinais económicos. E esses sinais podem tornar-se relevantes para avaliação de risco,é neste ponto que o telemóvel deixa de ser apenas um instrumento de pagamento e pode transformar-se numa ponte para a bancabilidade.
Do número de telefone à identidade financeira
O verdadeiro potencial não está simplesmente em substituir dinheiro físico por dinheiro digital,está em criar uma trajectória, telemóvel → pagamentos → histórico financeiro → poupança → bancabilidade → financiamento.
Essa sequência pode mudar a relação entre banca e economia informal, para muitas micro e pequenas empresas, um dos grandes obstáculos ao financiamento não é necessariamente a ausência de actividade económica. É a dificuldade de demonstrar essa actividade de forma organizada, verificável e analisável.
Se a digitalização conseguir transformar actividade económica em informação financeira útil, estaremos perante algo muito maior do que modernização dos pagamentos, estaremos perante uma nova infraestrutura de inclusão.
O desafio de Angola não é colocar um banco em cada rua
É colocar serviços financeiros seguros, simples e úteis nas mãos de cada cidadão economicamente activo, isso exige interoperabilidade, custos adequados, cibersegurança, protecção dos dados, literacia financeira e produtos desenhados para a realidade das famílias, comerciantes e pequenas empresas. Porque existe também um risco digitalizar sem incluir.
Podemos ter milhões de transacções electrónicas e continuar com pessoas sem poupança, sem acesso responsável ao crédito e sem capacidade de transformar rendimento em património. Por isso, o sucesso da banca digital não deveria ser medido apenas pelo número de downloads de aplicações ou transferências realizadas.
A pergunta mais importante é outra, quantas pessoas passaram de utilizadores de pagamentos para cidadãos financeiramente integrados?
O futuro da inclusão financeira poderá não começar numa agência bancária, poderá começar com algo muito mais simples, um telemóvel, uma transacção e a construção gradual de uma identidade financeira. Porque, no século XXI, talvez a agência bancária mais importante não seja aquela que está mais perto de casa, é aquela que cabe no bolso.
Kwanza 360 | Educação, inclusão e cidadania financeira