Inclusão Financeira

Mulheres, rendimento e acesso ao financiamento- onde estão as verdadeiras barreiras?

Milhares de mulheres geram rendimento todos os dias. A verdadeira questão é por que razão tanta actividade económica continua invisível para o financiamento?

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Claudio Gomes

07 07UTC November, 2026 · 3 min de leitura

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Em Angola, discutir financiamento feminino apenas perguntando se os bancos emprestam suficientemente às mulheres pode levar-nos ao diagnóstico errado. A questão é mais profunda, quantas mulheres chegam ao sistema financeiro em condições de transformar trabalho, rendimento e actividade económica em capacidade de financiamento?

Os números são reveladores, a Estratégia Nacional de Inclusão Financeira de Angola indica que apenas 24% das mulheres possuem conta numa instituição financeira, contra 57% dos homens. Entre a população financeiramente excluída, 59% são mulheres. Mais impressionante, a informalidade entre as mulheres chega a 93%, contra 89% nos homens, e 44% das mulheres trabalham por conta própria.

Uma mulher pode vender diariamente, sustentar uma família, movimentar dinheiro e possuir experiência de negócio durante anos. Porém, se essas receitas circularem essencialmente em numerário, sem contabilidade, histórico bancário ou documentação adequada, parte importante da sua capacidade económica permanece invisível para os modelos tradicionais de análise de crédito. O problema, portanto, não é necessariamente ausência de rendimento, é também a dificuldade de transformar rendimento económico em rendimento financeiramente demonstrável.

O Banco Mundial reforça essa leitura, em 2025, apenas 14,4% das mulheres empregadas em Angola eram trabalhadoras assalariadas, contra 33,5% dos homens. O emprego vulnerável atingia 81,5% entre as mulheres, comparado com 51,5% entre os homens. Isso ajuda a compreender por que razão o acesso ao crédito não pode ser separado da qualidade do emprego, da formalização e da estabilidade dos rendimentos.

Há ainda outra barreira, garantias.o crédito bancário tradicional tende a valorizar património, demonstrações financeiras, histórico de pagamentos e fluxos documentados. Quem está predominantemente na informalidade entra nessa equação em desvantagem, mesmo quando possui um negócio economicamente funcional.

A Alliance for Financial Inclusion, num estudo de 2026 dedicado especificamente às mulheres empresárias angolanas, identifica justamente informalidade generalizada, acesso limitado ao crédito, lacunas de literacia financeira e constrangimentos de infraestrutura entre as barreiras estruturais existentes.

Angola precisa de avançar do crédito para mulheres para uma verdadeira arquitectura financeira sensível à realidade económica das mulheres.

Isso significa criar modelos de credit scoring que valorizem histórico transaccional e pagamentos digitais, fortalecer mecanismos de garantia para reduzir a dependência de património, incentivar contas simplificadas para pequenos negócios, ligar microcrédito à formalização, ampliar educação financeira empresarial, e desenvolver produtos cujas prestações acompanhem os ciclos reais de caixa das microempresas.A própria ENIF 2025-2027 pretende aumentar a bancarização, a inclusão das PME, a poupança, o financiamento e os serviços financeiros digitais.

Mas existe uma mudança conceptual ainda mais importante, não basta ensinar as mulheres a adaptarem-se ao sistema financeiro. O sistema financeiro também precisa aprender a reconhecer melhor a economia que elas já produzem.A pergunta deixa então de ser apenas quanto crédito estamos a conceder às mulheres? E passa a serQuantas mulheres economicamente activas continuam invisíveis para o financiamento porque o sistema ainda não consegue transformar a sua actividade, os seus fluxos e o seu rendimento em informação de crédito?

Essa talvez seja uma das verdadeiras fronteiras da inclusão financeira em Angola.

Kwanza 360 | Educação, Inclusão e Cidadania Financeira

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